"Estamos lidando com um monstro de sete cabeças``. As palavras são do senador paraguaio Roberto Acevedo. Dizem respeito à esmagadora carga exercida pelo tráfico de drogas sobre o poder público e, consequentemente, sobre a sociedade de seu país. Carga essa que desafia com extrema violência políticas de segurança pública onde quer que seja. É também o que os brasileiros vivenciam, de forma igualmente brutal.
Roberto Acevedo foi vítima de atentado no dia 26 de abril, na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, próxima à fronteira com o Brasil. Escapou com vida. Por ser o senador personalidade política de vulto, o caso ganhou notoriedade e contornos aos quais se pode atribuir uma inegável, mas nunca subestimável, marca de dramaticidade. Por serem brasileiros os acusados da agressão, o caso diz muito respeito às ações que o Estado vem adotando contra o crime organizado.
A partir da ação contra Acevedo, na qual foram assassinados o motorista e o segurança que prestavam serviços a ele, podem-se traçar conexões contextuais até mesmo com o Ceará, onde a segurança pública tem sido alvo de seguidos questionamentos.
A começar pelo fato de o noticiário local apresentar, diariamente, casos de jovens e adultos mortos na guerra das drogas.
O ``monstro de sete cabeças`` acima aludido não é unicamente uma sombra ameaçadora sobre a macropolítica, a espreitar relações internacionais ou estratégias de segurança nacional. Diferentemente disso, tem olhos e apetite voltados para cenários localizados, de quaisquer realidades, desde que rendam-lhe dinheiro, poder e dependentes. Está nos grotões, em cidades pequenas e metrópoles, em bairros modestos e em condomínios de luxo.
Merece registro, porém, que a preocupação parece ter batido à porta dos nossos políticos, não raro omissos e alheios às demandas populares. Funciona no Congresso Nacional uma Frente Parlamentar Mista de combate ao crack. O grupo de deputados e senadores tem dado atenção a temas de segurança e de saúde, nesse caso indissociáveis.
Pode-se até considerar, tendo em vista o avanço do crack, que a iniciativa pode ser tardia. Mas não há de se perder, espera-se. Desde, é claro, que o ``monstro de sete cabeças`` não lhes mastigue discursos e propostas.
O Povo